Quarta-feira, 21 de Março de 2007

Dias Felizes

Um Texto do meu AMIGÃO José Pedro Amaral

“Tu és Surdo e eu sou Cego, mas,

se dermos as mãos, entender‐nos‐emos.”

Kalil Gibran – in “O Profeta

 

São 6:30 da manhã, de uma manhã inicialmente fria, como o são quase todas as manhãs de um qualquer mês de Março.

 

Faísca, a minha gata, salta para cima do edredão que aconchega a cama onde ambos passamos mais uma das muitas noites das nossas vidas e com uma das patas faz o favor de acordar‐me; são horas não só de começar mais um dia de trabalho como, também, de lhe dar a paparoca matinal que lhe dará forças para enfrentar mais um dos muitos dias da sua existência de já dois anos e de grande companheira que tem sido.

 

Quanto a mim, dedico‐me às tarefas triviais de um ser diferente que se pauta por ser igual a muitos outros seres diferentes que fazem desta vida uma loucura normal: fazer a cama, separar e escolher a roupa do dia anterior pela que pretendo usar neste dia, fazer as minhas necessidades matinais, tomar o meu duche três em um: lavar os dentes fazer a barba e o duche propriamente dito; pois que este porco humanóide marca a diferença do primeiro pelo asseio e apresentação que faz dele um Ser Sublime.

 

Terminados que estão estes preliminares é chegada a hora da, minha, pequena refeição matinal, a qual a não ser feita quase não me restam forças de uma noite mal dormida para fazer o percurso matinal da pacata vila ribatejana onde resido para o reboliço da grande metrópole que é a cidade onde, ainda, exerço a minha actividade profissional.

 

A saída do aconchego do meu refúgio ribatejano dá‐se quarenta e cinco minutos depois, altura em que me dirijo em direcção ao já habitual ponto de paragem do autocarro que fará o favor – favor não!‐ é pago e não é pouco! – de transportar‐me até quase ao coração da grande metrópole, sem que antes, no percurso que faço do meu refúgio até ao ponto de paragem do bus – não deixe de passar pelo simpático e acolhedor café do Luís para um trivial “cimbalino” e dois dedos de conversa para soltar a língua perra ainda de uma noite de sono mal dormida.

 

A chegada à paragem faz‐se ainda com a dita completamente deserta; afinal que tem a mobilidade mais condicionada sou eu, pelo que sempre me antecipo para evitar não só os percalços da caminhada de um pedestre normal que se vai orientando pelo uso e abuso da sua companheira de metal e fibra de vidro que é a sua bengala branca: símbolo da independência e autonomia de qualquer ser humano privado daquilo que seria a sua visão regular.

 

Os demais companheiros desta viagem diária e quase interminavelmente constante vão chegando…os naturais “olás” vão se escutando à medida que vão chegando, dentro de poucos instantes, ainda antes da chegada do nosso “bus” começa a pairar no ar a já vulgar miscelânea de odores, cada um exaltando um pouco da personalidade de quem os tendo escolhido para “imagem de marca” se viu reflectido no perfume que usa.

 

O “bus” chega, não sem que antes não tivessem já passado outros tantos, mas que não eram o que todos esperámos; ordeiramente cada um dos que o esperavam entram um a um…uns mostrando o seu título de transporte mensalmente válido, outros adquirindo o sazonal bilhete de uma fugaz ida à grande metrópole para tratar de qualquer pendente da vida normal de cada um, e a “guerra dos odores” repete‐se, muitas vezes sem quartel, já que a exiguidade do espaço, a muito maior proximidade das pessoas e a ventilação menos eficaz que a de um espaço aberto lhe dá azo para existir; mas que em nada prejudica a presença de todos, antes, às vezes, até nos aproxima: tal como as conversas dos passageiros dos lugares da frente com o motorista, amigo, vizinho ou mesmo conhecido da localidade de cada um.

 

O autocarro vai serpenteando pelas exíguas artérias da localidade, ao som de uma qualquer estação radiofónica, recolhendo outros que, como nós, estão à sua espera noutras tantas paragens bem antes que este entre, finalmente, na via‐rápida que nos leva até à auto‐estrada onde, então, transporemos esse imenso e largo rio que separa ambas as margens; sem que antes não deixemos de vislumbrar os campos verdes deste cantinho Ribatejano vislumbrando ao longe e ao perto uma manta de retalhos de antigas salinas hoje poiso e ninho de aves migratórias tão belas como o são os flamingos branco e cor-de-rosa: o que empresta à paisagem deste lado do grande rio rara beleza.

 

Já no enorme tabuleiro da ponte, se colocarmos os olhos na linha do horizonte, somos presenteados com a brandura e brancura da silhueta do casario da grande metrópole; desde as zonas mais antigas e recônditas às fachadas vítreas e espelhadas de um espaço novo e amplo junto ao rio: pedaços brilhantemente reaproveitados de uma megalómana exposição mundial que não tendo sido tão excepcional quanto a sua megalomania permitiu, assim, o nascer – ou renascer! – um espaço citadino que era já de si morto de tanta poluição e abandono, de rara beleza e de comunhão da cidade com o rio.

 

Aqui chegado, o autocarro serpenteia pelas ex‐alamedas ora reabilitadas da citada exposição onde se nos depara o primeiro ponto de partida para os afazeres de cada um de nós por entre esta imensa teia de percursos e de lugares estáticos para os quais todos os seus passageiros se dirigem depois desta curta viagem de rara beleza.

 

Eu, pela minha parte, hoje vou mascarar‐me de toupeira; pois que tendo necessidade de tratar de um pequeno assunto de natureza particular optei por descer aos subterrâneos citadinos e apanhando outro meio de transporte, o meto – como dizem os alfacinhas mais velhos e de boas famílias – e rumar ao meu destino habitual – o meu local de trabalho – de uma outra forma, também, prazenteira, já que também nos é dada outra forma de Sentir a Cidade bem como as gentes – qual formigueiro! – que como eu desaguam nela para dar a si próprios uma razão de viver sobrevivendo a tudo quanto esta sociedade de hoje teima em criar complicando ainda mais o que já de si, em muitíssimos casos! é quase absolutamente caótico.

 

Ordeiramente lá me dirigi ao cais de embarque do metro, como eu uma milésima parte deste formigueiro citadino aguardava a chegada da tão desejada composição para alcançar um lugar vazio para poisar o outro extremo da coluna vertebral e, assim, conseguir chegar ao emprego ou aos seus afazeres de forma mais tranquila e sossegada para não estragar já o que nascido pouco tempo já era: mais um dia igual a tantos outros vividos e vivenciados até esta data.

 

Eu entrei na dita composição sem que os pés se me tocassem no chão; não porque fosse um pássaro ou uma criança de colo, mas porque o magote de gente que se afunilou diante da porta desta à frente da qual eu já me havia colocado, estrategicamente, para que, dada a visibilidade da minha Bengala Branca, me fosse facultado um lugar sentado que me permitisse contornar a minha falta de equilíbrio em ambientes instáveis e de muito movimento.

 

Assim que entrei, um cavalheiro parte de um jovem e encantador casal de executivos logo se prontificou a facultar‐me o seu lugar permitindo, assim, que tal como a sua jovem e encantadora companhia percorressem esse trajecto de uma forma mais tranquila, serena e descansada.

 

Ao meu lado, junto á janela exterior da linha, um outro casal dialogava silenciosamente e apenas e só com o movimento das mãos, do corpo e das expressões faciais de ambos e de cada um; o que, muitas vezes, levava todos aqueles que nos envolviam a pensar com os seus botões como deve ser ainda assim interessante viver‐se envolto no silêncio, físico, e conseguir ser‐se Pessoa activa, participativa e Feliz fazendo parte de um mundo, que sendo também nosso, não produz ruídos e que nem por isso deixa de comunicar e existir.

 

A minha estação de destino avizinhava‐se, e, com ela, a minha curiosidade em saber se seria eu capaz de também entrar, ainda que momentaneamente nesse mundo, e então, esboço um tímido gesto na sua própria língua com o qual fiz a minha saudação matinal de “bom dia”, pedi desculpa por interromper o diálogo e perguntei ao casal, sempre em L.G.P., como se chamavam, onde residiam e a que Associação de Surdos pertenciam, ao que eles, estupefactos por terem sido abordados por alguém que não podendo ver e distinguir muito bem a sua língua visual se absteve de qualquer ponta de timidez e procurou estabelecer um pequeno diálogo.

 

Rapidamente nos despedimos com as naturais perguntas dos nossos nomes, onde trabalhávamos e a que associação de surdos/cegos pertencíamos e, nelas, quem conhecíamos.

 

Assim terminou uma das muitas longas viagens diárias, de uma forma tal que mais parecia ter durado dez minutos; mas que terão sido os mais saborosos dez minutos daquele dia ou até das nossas vidas!

 

Alcochete, 13 de Março de 2007

publicado por Armando Baltazar às 14:14
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